Para Rui Rio, a crise que Portugal atravessa é “transversal” ao regime. Não se pode como tal, assinala o líder do PSD, fazer uma leitura “superficial” da realidade. “A crise não está só à direita, a crise está no regime como um todo. Neste momento está à esquerda no poder e, portanto, disfarça à esquerda. Mas o problema é transversal, nós temos uma crise efetiva de regime, com um descrédito muito grande de todo o sistema partidário, não é à direita nem à esquerda”, declarou Rui Rio, num comentário às declarações do Presidente da República.

O Presidente do PSD, que participava na Convenção Nacional de Relações Externas e Defesa Nacional do Conselho Estratégico Nacional (CEN), em Albufeira, este sábado, recorda os sucessivos alertas que tem deixado sobre o sistema político atual. Para o Presidente do PSD, se este “fosse só um problema exclusivo do PSD, ou do CDS ou da direita”, haveria possibilidades de, “com facilidade, revigorar a democracia, porque era só parte da democracia que estava em causa”, o que não se verifica.

Rui Rio sublinha que também “o PS, quando deixar o poder, e os partidos mais à esquerda, quando deixarem de ter influência no poder, os portugueses verão que, infelizmente, a crise é transversal”.

O Presidente insiste que é necessário reconhecer desde logo que portugueses estão descontentes com o sistema partidário em geral”, esse “é o primeiro passo para poder resolver as coisas”, de contrário “é o primeiro passo para ficar tudo na mesma, ou pior”.

Rui Rio na Convenção do CEN: “Portugal, sonhado pragmaticamente, é grande e central”

Na intervenção que proferiu na Convenção Nacional de Relações Externas e Defesa Nacional do CEN, Rui Rio destacou a “tripla” vocação portuguesa: a aliança com União Europeia, a NATO e a CPLP. “Este triângulo não deve ser hierarquizado, pois é quando se encontra em equilíbrio que estamos melhor posicionados para responder aos nossos desafios. A estas posições constantes na nossa História juntam-se, depois, dois pilares igualmente fundamentais. Primeiro, as Comunidades Portuguesas, um imperativo, pois o maior ativo de um país é o seu povo, esteja ele onde estiver. Segundo, a extensão da plataforma continental para lá das duzentas milhas marítimas, mais do que duplicando o território nacional”, defendeu.

Rui Rio considera que “Portugal, sonhado pragmaticamente, em forma de pentágono, não é pequeno, nem periférico. É grande e central”.

Estas ideias, que foram apresentadas pela primeira vez na deslocação que o Presidente do PSD fez no dia 27 de setembro de 2018 a Cabo Verde, sintetizam a posição de Portugal no mundo.

A União Europeia, enaltece Rui Rio, é o “espaço de congruência entre os nossos valores e interesses essenciais: a Liberdade, a Democracia, os Direitos Humanos, o Estado de Direito, a Economia de Mercado, o Desenvolvimento Económico-Social, a segurança física e material dos portugueses”.

Em segundo lugar, a par do europeísmo por convicção, Portugal deve apostar no “vínculo transatlântico”. “A especificidade de Portugal, situado no extremo ocidental da Europa e tendo o Atlântico como segunda fronteira, faz com que a relação transatlântica seja para nós mais importante do que para qualquer outro país europeu. Numa Europa fundamentalmente continental, cada vez mais virada para Leste e de costas voltadas para o Oceano que une os dois lados do Ocidente, o país torna-se periférico e estrategicamente marginal. Numa Europa apostada no laço transatlântico, Portugal ganha centralidade e tem um maior poder de influência dentro da União Europeia, reforçando em simultâneo a sua influência no Atlântico e no resto do mundo”, acrescentou.

O terceiro vetor é o “Espaço Lusófono”, aquele que, no entender de Rui Rio, “assegura a singularidade portuguesa e distingue o nosso País de todos os outros, traduzindo-se na relação especial, bilateral e multilateral, com os Países de Língua Oficial Portuguesa; seja na política, seja na economia, seja na cultura, seja, acima de tudo, nos afetos”. Neste terceiro eixo, Rui Rio apela à revitalização da CPLP, através da “reforma da organização, desde logo admitindo o aumento da duração do tempo de mandato do Secretário Executivo, permitindo assim uma maior continuidade e coerência na ação e na estratégia. Propostas como o Regime de Mobilidade Própria da CPLP, o aumento exponencial das relações económicas e o alinhamento estratégico em organizações internacionais devem igualmente estar na linha da frente das nossas prioridades”.

Finalmente, Rui Rio referiu-se às Comunidades Portuguesas como o quarto eixo da estratégia de inserção internacional de Portugal. “O povo é o maior ativo de um país, esteja ele em Portugal continental, nas ilhas atlânticas, ou nas Comunidades Portuguesas e Luso-Descendentes espalhadas por todos os “cantos do globo”. Estas últimas são um elemento fundamental da nossa gente e um símbolo da vitalidade da nação portuguesa. São elas que garantem o prolongamento do nosso espaço de influência a todo o mundo. Por isso, esta tem de ser uma nova grande prioridade nacional”, apontou.

A este propósito, Rui Rio preconiza a adequação da rede consular à realidade das Comunidades Portugueses, modernizando os serviços consulares, de modo a permitir uma “expedita capacidade de resposta”.

No quadro do “multilateralismo efetivo”, o Presidente do PSD defende uma “participação ativa de Portugal nas diversas áreas do sistema das Nações Unidas, como, por exemplo, a Conferência sobre as Alterações Climáticas, a Organização Internacional para as Migrações ou o Alto-Comissariado para os Refugiados”.

“Sophia de Mello Breyner falou por Portugal, que há-de sempre voltar junto ao mar para viver o que não viveu. Luís Vaz de Camões batizou o país como o local ‘Onde a terra se acaba e o mar começa’. Esta é a nossa ideia de Portugal: um grande País, de mar e terra, de terra e mar”, concluiu Rui Rio.