Nunca, como neste momento, palavras como coragem e esperança fizeram tanto sentido.

Já sabemos que muita coisa correu mal e, à medida que a Direção-Geral da Saúde nos vai fornecendo dados diários atualizados, é previsível que fiquemos ainda mais preocupados. Cada morte é uma perda que nos toca. Cada doente internado nos cuidados intensivos é mais uma angústia para todos nós.

O PSD vai manter-se focado em “ser parte da solução e não oposição”. Mas colaborar não significa ser colaboracionista. Não é possível ignorar ou pactuar com a mentira despudorada. Ouvir o Primeiro-Ministro, em direto, na televisão a afirmar que “até agora não faltou nada e não é previsível que venha a faltar o que quer que seja” é de uma arrogância incompreensível e de uma injustiça atroz para os profissionais de saúde que estão na primeira linha.

Há dias, o presidente do Sindicato Independente dos Médicos alertava para a falta de equipamentos no Hospital de Santa Maria: “Havia ontem internos a tratar de problemas de ventilação sem terem uma máscara para colocar no rosto, nem sequer das sequer cirúrgicas”. Há notícias de profissionais de saúde a recorrerem a fatos de pintor e da improvisação de inúmeras indústrias para confecionarem material de proteção individual.

Há iniciativas da sociedade civil para a recolha de material em falta, como a plataforma www.umpassoafrente.pt, e apelos desesperados, de cidadãos e de profissionais de saúde, nas redes sociais, a pedir a doação de máscaras, batas, fatos, óculos e viseiras, como aconteceu, nos últimos dias, no Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia e Espinho.

Também a Ordem dos Enfermeiros denunciou a obrigação imposta aos enfermeiros, em isolamento profilático, converterem esse período em dias de férias ou a descontá-lo no banco de horas extraordinárias. Enfermeiros que, tal como os médicos, trabalham até à exaustão, colocando em risco a própria vida e ainda vêm cerceados os seus direitos laborais? É este o reconhecimento público que merecem pelo que estão a fazer pelo País?

Ficará para mais tarde, o escrutínio da ação governativa.

Este é o momento para reunir forças e não esmorecermos no combate a um inimigo invisível. A pandemia veio para ficar por mais tempo do que alguns vaticinavam e cada dia que passa parece uma eternidade. Uma palavra de conforto ou uma estatística mais positiva perante notícias tão más, ajudam-nos a recuperar o ânimo. São também uma arma contra o medo. O vídeo do Turismo de Portugal foi muito feliz na mensagem. Um incentivo para que ninguém desista. Para superar esta interrupção forçada nas nossas vidas. Temos de ficar em casa. Esperar é a opção certa para voltarmos a seguir em frente.

Este é o tempo para combater uma crise sanitária sem paralelo. Uma crise que obriga a uma mobilização coletiva nunca vista. Tempo para que todo o investimento público seja orientado para a saúde. Não há saúde pública ou saúde privada, há apenas o esforço de todos ao serviço dos portugueses.

Da próxima vez que os profissionais de saúde fizerem greve, não sejamos ingratos. Em vez de críticas, batamos-lhes, de novo, palmas pelo que estes fizeram, no turbilhão do combate da Covid-19.

Estamos no sétimo dia de estado da coronoemergência. O silêncio das nossas praças, vilas, aldeias e cidades é estranho, mas é reconfortante. É a confirmação de que, na esmagadora maioria, o comportamento dos portugueses tem sido exemplar. Como incitava o vídeo do Turismo de Portugal, “hoje, separados, estamos mais unidos que nunca”. Só com este espírito é que conseguimos vencer este pesadelo.

 

Artigo publicado originalmente no Povo Livre.