Em maio, o Conselho Executivo da TAP tornou público um plano de rotas que era lesivo do interesse nacional, que ameaçava a coesão nacional e que discriminava o aeroporto Francisco Sá Carneiro, que serve mais de 5 milhões de pessoas, incluindo, também, a Galiza, praticamente todo o distrito de Aveiro e parte norte do distrito do Viseu.

À data, perante uma sublevação generalizada da opinião pública e publicada, a administração da transportadora infletiu e prometeu corrigir o erro, salvaguardando o equilíbrio regional e a vitalidade dos aeroportos de Faro, Funchal, Ponta Delgada e, claro, do Porto.

Pouco mais de três depois, a TAP – e não se sabe exatamente quem, se o presidente da Comissão Executiva cessante, que continua em funções à espera de uma indemnização choruda por sucessivos prejuízos da empresa, ou se o presidente do Conselho de Administração, Miguel Frasquilho – acaba de apresentar um novo plano que, na prática, faz tábua rasa daquela promessa e reitera concentração operacional da companhia em Lisboa.

Infelizmente, a intenção inicial passou a ser uma certeza. Lamentável. De como uma decisão apenas pode arruinar uma empresa.

Em vez da reclamada implementação de um plano de rotas e voos, proporcional ao número de passageiros, a partir de todos os aeroportos nacionais, ao Porto foi apenas atribuída uma nova rota da TAP, para a ilha do Sal, em Cabo Verde, num total de seis novos destinos. Por ironia do destino, parecem confirmar-se as palavras do Primeiro-Ministro, que, em maio, afirmava que o plano de rotas “não tinha credibilidade”. É caso para dizer que, ou caiu por terra ou não tinha asas para voar.

Por outro lado, é absolutamente bizarro que o Porto volte a ficar fora dos planos de retoma da TAP, quando a empresa que irá receber 1.200 milhões de euros do Estado, para sua recuperação económica e viabilidade financeira.

A TAP promete ser um caso de estudo ao nível da incompetência e da incoerência das decisões. Se, de modo próprio, a TAP quer ser uma companhia regional, uma espécie de Linhas Aéreas da Estremadura, como tão bem caraterizou Rui Rio, então que o seja, mas uma companhia aérea que só serve os interesses de uma parte do País não deve ser paga pelos impostos de todos os outros.

Mas esta forma de tomar decisões, para mal dos nossos pecados, parece ser a sina do Governo, que das duas uma. Ora fica refém dos seus preconceitos ideológicos, ora esbarra nas suas próprias contradições.

Nos últimos dias foi notícia, no “La Voz de Galicia”, que o Governo português autorizou a compra de 51 carruagens à RENFE, pela módica quantia de mais de 1,65 milhões de euros, desativadas no país vizinho por conterem amianto.

Estas composições supostamente vão circular na linha férrea do Minho, entre o Porto e Valença, transportando passageiros e amianto.

Material circulante antiquado, obsoleto e pouco ecológico já todos sabíamos. Mas agora, também ficamos a saber que a CP irá disponibilizar carruagens que são uma ameaça à saúde pública por conterem na sua estrutura, desde o fabrico, uma das fibras naturais mais perigosas as pessoas.

Parece um pesadelo, mas é real. O mesmo Governo que subsidia a remoção do amianto dos telhados das escolas, expõe os utentes da CP ao amianto, incluído no preço de um bilhete.

O Governo que há décadas tenta resolver o problema da presença e deposição de amianto em centenas de edifícios públicos – são 578, só em território continental e lista era secreta até há poucas semanas – tem o desplante de adquirir material circulante com fibras cancerígenas.

Se a TAP pretende assumir-se numa espécie de Transportes Aéreos da Portela, a CP corre o risco de se tornar na Comboios de (todos os) Perigos.

Conclui-se, portanto, que as decisões no setor dos transportes são, à imagem do próprio ministro, um equívoco ideológico.

Artigo publicado originalmente no Povo Livre