O primeiro ano da legislatura está quase a terminar. Um acontecimento, atípico e inédito, influenciou por completo a ordem internacional e, naturalmente, interferiu de forma negativa com todo o funcionamento do País. Um vírus que virou do avesso a organização dos Estados e obrigou os governos a decisões difíceis.

Uma crise sanitária que rapidamente degenerou numa gigantesca crise económico-social, com consequências que baralharam os indicadores reais e todas as projeções. Nesta indefinição o certo é que, como irão, com certeza, confirmar mais tarde os dados definitivos, Portugal atravessa uma crise colossal. Depois de um excedente histórico de 0,2% do PIB, em 2019, corremos o risco de ver a riqueza, este ano, afundar mais de 7%. É, definitivamente, a pior crise em mais de 100 anos.

Por outro lado, a pandemia comprovou que Portugal é um Estado dependente e muito exposto a fatores externos. Mas a culpa, despoletada pela força biológica de um vírus não é só exógena. A melhor forma de nos prepararmos para um problema desta natureza é agirmos, em tempo, e anteciparmos as soluções.

O Serviço Nacional de Saúde, pese embora a degradação e a falta de meios, respondeu ao apelo para achatar a curva de infetados e minorar o impacto de uma doença, que tem revelado índices de contágio preocupantes. Valeu sobretudo a enorme dedicação dos profissionais de saúde.

Sem investimento não há saída para o SNS. O pagamento das dívidas a fornecedores, num Estado que deveria ser pessoa de bem e a dignificação dos profissionais de saúde, que tem de ser mais que propaganda para as televisões, poderiam ser o ponto de partida.

Na educação, o ensino à distância permitiu a resposta possível ao confinamento social e ao encerramento dos estabelecimentos – do pré-escolar às universidades. Mas agora é tempo de garantir que, efetivamente, ninguém fica para trás no comboio da escola pública, em modelo digital. Setembro é o mês de regresso às aulas e o ensino presencial é, sem dúvida, a melhor forma de proporcionar a aquisição de conhecimentos e melhores competências. Temos de evitar, a todo o custo, um modelo de ensino a duas velocidades, que apenas agravará as desigualdades. Entre os alunos oriundos de agregados familiares com recursos adquirir os meios e as crianças das famílias que têm de escolher entre comprar máscaras, ter duas refeições ou comprar um computador, uma equação que exige decisões financeiras verdadeiramente insuperáveis.

No universo laboral, ainda com uma parte muito considerável dos trabalhadores em regime de teletrabalho – só na função pública mais de 30% – urge que as empresas e quadros façam desta crise uma janela de oportunidade para melhorar os índices de produtividade, num formato em que todos possam sair a ganhar.

Na economia, as empresas não podem continuar à espera dos apoios que lhe são devidos, por direito, mas que se perdem no bloqueio de despachos que circulam entre Ministérios ou no emaranhado de preenchimento de formulários. Para muitas PME, quando houver finalmente uma decisão, já será tarde demais. Ninguém compreenderá que a ironia inaceitável de um Governo que financia bancos falidos, mas não consegue salvar empresas que asseguram milhares de postos de trabalho.

Ninguém se iluda a pensar que o bodo de 45 mil milhões de euros de Bruxelas vai resolver todos os nossos problemas. Irá, sem dúvida, contribuir para atenuar o impacto da crise pandémica, mas só se os fundos forem direcionados na qualificação e na qualidade de vida das próximas gerações e não para encher os bolsos dos interesses privados ou corporativos.

Quando as moratórias acabarem, quando as empresas voltarem a liquidar os impostos que estão suspensos, quando as famílias regressarem à realidade dos seus orçamentos, quando o desemprego atingir os dois dígitos ou quando as insolvências dispararem, de pouco servirão os lenitivos daqueles que acreditam que conseguem parar o vento com as mãos ou resolver problemas com atos de propaganda. O Governo, que perdeu Mário Centeno e ainda lhe ofereceu um prémio, para fazer cessar as hostilidades entre um ex-ministro despeitado e um Primeiro-Ministro desautorizado, não poderá deixar de chocar de frente com as suas responsabilidades.

A pandemia afeta o sistema imunológico, mas não poderá tolher o nosso bom senso. Os mercados e as instituições europeias não terão contemplações com as más decisões do País. Nessa altura, faremos o balanço entre os que sempre disseram presente, sobretudo nas horas mais difíceis e aqueloutros que sucumbem à primeira tormenta, da própria tempestade que ajudaram a criar.

Artigo publicado originalmente no Povo Livre